segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O relatório da coisa por José Castello

Hoje falaremos, através das palavras de José Castello, sobre o conto O relatório da coisa, que também se encontra no livro Clarice na Cabeceira.

CONTO: O relatório da coisa
DO LIVRO: ONDE ESTIVESTES DE NOITE
APRESENTAÇÃO: José Castello

José Castello (Rio de Janeiro, 1951) é um escritor e crítico literário brasileiro. Está radicado em Curitiba e é autor de crônicas publicadas periodicamente no jornal O Globo e dos livros Inventário das Sombras e Fantasma, ambos publicados pela Editora Record; O Poeta da Paixão, publicado pela editora Companhia das Letras; e O Homem Sem Alma / Diário de Tudo, publicado pela Editora Bertrand. Seu mais recente livro é A Literatura na Poltrona, publicado pela Record.


CLARICE LISPECTOR DIZIA TER a capacidade de “enxergar a coisa pela coisa”. De abster-se das palavras. Usou palavras brutas e enigmáticas: “isso”, “it”, “ a coisa”. Era seu esforço para chegar onde as palavras não alcançam. Coisas que escapam à armadura dos nomes.

“O relatório da coisa” é um corajoso esforço para acessar esse mundo em que as palavras se tornam não só desnecessárias, mas absurdas. Ao coração selvagem em que nos debatemos. Mesmo com as melhores palavras, algo sempre escapa. Esse algo é a “coisa”.

Clarice exclui o relatório de sua literatura. “Esse relatório é a antiliteratura da coisa”, diz. Dispensa o conforto que as palavras nos oferecem. Seu relato – mas não é relato, é relatório – avança e avança, e não chega a coisa alguma. É justamente porque fracassa que ele delimita a coisa.

Clarice materializa a coisa em um relógio: não qualquer relógio, mas um relógio determinado, da marca “Sveglia”. Em italiano, “sveglia” quer dizer “acorda”. Palavras sempre remetem a novas perguntas: “Acorda para o quê, meu Deus?”, ele se pergunta.

Não importa saber se “O relatório da coisa” é um conto. Sem dúvida, é literatura. Seu relato é – e, nesse verbo que dispensa um objeto, reside sua potência. A literatura não se reduz a belas palavras. Ou é, ou não é. Se não é, fechamos o livro.

(FIM)

Postado por Irla

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A quinta história por Fernanda Torres

Dando continuidade as apresentações dos contos, publicados no livro Clarice na Cabeceira, da Editora Rocco, trazemos o texto de Fernanda Torres.


Fernanda Pinheiro Monteiro Torres (Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1965) é uma atriz brasileira. Filha do casal de atores Fernando Torres e Fernanda Montenegro, aos 13 anos, entrou para o Tablado.

O conto selecionado por ela foi:

CONTO: A quinta história
DO LIVRO: A LEGIÃO ESTRANGEIRA
APRESENTAÇÃO: Fernanda Torres

O QUE ESCREVER DIANTE DE UM CONTO em três partes em que o simples ato de matar uma barata na cozinha de casa ganha a dimensão de uma tragédia grega surrealista? Nada.

Não há o que acrescentar. Tenho até vergonha de escrever: Qualquer comentário me parece obsoleto.

CLARICE ME DEIXA MUDA.

Postado por Irla

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ClariCINE

"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano, e solitário”.

Assim somos nós, SERES HUMANOS, assim é Clarice Lispector e sua misteriosa MÁSCARA.

Seguindo nossa paixão por Clarice, sua personalidade e obras, nos reunimos (algumas das integrantes do Clube) para assistir ao Documentário Especial – Clarice Lispector, gravado pela TV Cultura, cuja protagonista, obviamente, é nossa DIVA, Clarice, que teve Gastão Moreira como apresentador.


Desde já recomendamos a todos os fãs de Clarice que o assistam!

O programa começa com a seguinte colocação “se fosse inventada uma escala para medir abalos sísmicos literários, por certo, tudo o que Clarice Lispector escreveu atingiria grau máximo”.

O apresentador faz, ainda, a advertência de que “ela era uma terremoto completo!” e completa dizendo ser “preciso reconhecer que para mergulhar na leitura de Clarice Lispector é necessário certo preparo psicológico”.

Sobre a gravação, é composta de uma entrevista realizada em 1977 por Julio Lerner, pouco antes de Clarice morrer, onde ela fala sobre suas origens, a família, o ofício de escritora, como começou a escrever e sobre seu último livro, que acabara de escrever e ainda não sabia o nome (A Hora da Estrela).

- Eu acho que quando eu não escrevo estou morta! diz.

- Bem, agora eu morri, vamos ver se eu renasço de novo... por enquanto estou morta!... acrescenta.

O programa ainda traz depoimentos da cineasta SUZANA AMARAL (que transformou em filme o último livro de Clarice: A Hora da Estrela), falando sobre as personagens da escritora e seus olhares subjetivos; MARILENA ANSALDI (atriz e coreógrafa. Pioneira na criação de espetáculos que unem dança, teatro e recursos multimídia, a intérprete-criadora é precursora da dança-teatro no Brasil), protagonista de “Um Sopro de Vida” falando sobre solidão, MARIA BETHÂNIA declamando alguns poemas de Clarice; e a amiga OLGA BORELLI, falando sobre sua relação de amizade com a escritora, bem como sobre a doença de Clarice, um câncer generalizado que veio a provocar sua morte.
“Mistura de prosa, confissão, discursos internos e poesia. Clarice sempre soube resolver nossos mais secretos medos”, mais uma verdade colocada por Gastão no inicio do programa.


Questionada sobre quando começa sua carreira literária, Clarice revela que “antes dos 7 anos já escrevia, inclusive inventei uma história que não acaba nunca. [...] Quando comecei a ler e escrever, comecei a inventar pequenas histórias”.
Sobre sua produção literária na adolescência, ela afirmou “ser caótica, intensa, inteiramente fora da realidade da vida”.

Ouvir de Clarice frases como:

- Tinha uma timidez de ousada. Sou tímida e ousada ao mesmo tempo.

Ou ainda:

- Eu não sou uma profissional. Eu só escrevo quando eu quero. Eu sou amadora, e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou com o outro, em relação ao outro. Faço questão de não ser uma profissional para manter a minha liberdade.

fazem-nos ficar ainda mais intrigadas e apaixonadas pela personalidade de uma Mulher que busca o autoconhecimento pelas palavras, pela escrita, e, por que não, pela literatura.

Através dos livros-infantis, romances, contos e crônicas, Clarice atingiu vários públicos. Quando lhe perguntam se ela sentia mais facilidade em comunicar-se com criança ou adulto, mostra-se por inteiro. “Quando me comunico com criança é fácil, por que sou maternal. Quando me comunico com o adulto, na verdade, estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, aí é difícil. O adulto é triste e solitário. A criança é fantasia, solta”.

Essas e muitas outras falas de Clarice, no decorrer do documentário, reafirmaram nossa paixão por essa mulher que não teve medo de desvendar a si mesma.

Postado por Irla