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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Onde estivestes de noite por Luis Fernando Carvalho

Pra dar uma atualizada, ainda do livro Clarice na Cabeceira - Contos (por que agora temos Clarice na Cabeceira - Crônicas), o digníssimo Luis Fernando Carvalho escolheu o seguinte conto:



CONTO: É para lá que eu vou
DO LIVRO: ONDE ESTIVESTES DE NOITE
APRESENTAÇÃO: Luis Fernando Carvalho

Luiz Fernando Carvalho de Almeida é um cineasta e diretor de televisão brasileiro. Aos 18 anos fez seus primeiros trabalhos em cinema, ainda como estágiário. Pouco depois começou a trabalhar no nucleo Usina de teledramaturgia da Rede Globo de televisão, onde conheceu o diretor de fotografia Walter Carvalho com quem realizou diversos trabalhos desde então. Neste núcleo foi diretor assistente de diversas minisséries, como O Tempo e o Vento e Grande Sertão: Veredas. Em 2001, enquanto finalizava Lavoura arcaica, dirigiu a minissérie "Os Maias", baseada no romance homônimo de Eça de Queirós. Em 2005 produziu a minissérie Hoje é dia de Maria, que foi comparado a Lavoura Arcaica por ter uma linguagem inovadora para uma minissérie de televisão.Em 2007, dirigiu a série A Pedra do Reino, exibida na TV Globo e baseada no "Romance d'a Pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", de Ariano Suassuna.Em 2008, dirigiu a minissérie Capitu, baseada na obra de Machado de Assis.[1] E em 2010, dirigiu "Afinal, o que querem as mulheres".

NÓS É QUE ESTAMOS À BEIRA DE Clarice, à beira de Claricear, e nunca Clariceamos; estamos à beira de nascer um Clariceão imenso dentro de nós, e nada, nada de nos entregarmos ao Clariceamento: “Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós”.

Postado por Irla

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A menor mulher do mundo por Luis Fernando Verissimo

Ainda falando de Clarice na Cabeceira, Editora Rocco,
extraimos o seguinte trecho, do
CONTO: A menor mulher do mundo
DO LIVRO: LAÇOS DE FAMÍLIA
APRESENTAÇÃO: Luis Fernando Verissimo

“Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que
sua esposa jamais o julgaria:
— Você é Pequena Flor.”




O grande escritor brasileiro conhecido por suas crônicas e textos de humor, publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Luis Fernando Verissimo, se manifesta sobre Clarice da seguinte forma,

EM 1953 MEU PAI FOI CONVIDADO a dirigir o Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, ligada à Organização dos Estados Americanos. Fomos para Washington, uma aborrecida cidade burocrática, no começa da era Eisenhower. O diplomata Maury Gurgel Valente e sua mulher Clarice estavam lá com os dois filhos, Pedro e Paulo, e foram os primeiros brasileiros a dar boas-vindas aos recém-chegados. Eles seriam os melhores amigos dos meus pais nos quatro anos em que ficamos em Washington. Clarice e minha mãe, que não poderiam ter personalidades mais diferentes, tornaram-se amigas de infância. E sem que houvesse qualquer cerimônia, meus pais foram designados padrinhos extraoficiais do filho mais moço dos Valente, o Paulo. (Uma vez fui levar Clarice e os dois meninos em casa de carro e na chegada o Paulinho perguntou: “Não quer entrar e tomar um cafezinho?” Grande surpresa. Ele mal começara a falar, era provavelmente a primeira frase inteira que dizia.) Várias fotografias da Clarice, inclusive algumas que têm saído na imprensa, foram tiradas pelo meu pai durante o convívio dos dois casais naqueles anos americanos. Também houve uma designação extraoficial do meu pai como fotógrafo exclusivo da Clarice.

Eu tinha 16 anos quando chegamos a Washington e a minha primeira impressão da Clarice foi a de todo mundo: fascinação. Com a sua beleza eslava, os olhos meio asiáticos, e erre carregado que fava um mistério especial à sua fala, e ao mesmo tempo com seu humor e seu jeito de garotona ainda desacostumada com o tamanho do próprio corpo. O fato de que aquela Clarice era a Clarice Lispector não dizia muito. Eu sabia que era uma escritora meio complicada, nunca tinha lido nada dela. Só quando voltamos ao Brasil li O lustre, Perto do coração selvagem e, depois, os contos, extraordinários. “A legião estrangeira”, “Amor”, “Uma galinha”, “Macacos”, “Laços de família”, “Festa de Aniversário” e tantos outros, e o melhor conto que conheço em língua portuguesa, “A menor mulher do mundo”.

Em 1962 saí de Porto Alegre e fui morar com minha tia, no Rio. A Clarice, que então já estava separada do Maury, era nossa vizinha no Leme e pude conviver, e me fascinar, um pouco mais com ela.

Anos mais tarde, folheando alguns livros da Clarice, dei com uma dedicatória dela em A maça no escuro, para “meus queridos Erico e Mafalda”. Uma dedicatória brincalhona, datada de julho de 1961, em que ela destaca que o preço do livro nas livrarias é de 980 cruzeiros e que portanto está lhes dando um presente valiosíssimo, e recomenda que ele seja protegido com uma capa colante, do tipo que gruda na mão e “prende” o leitor. No fim há um adendo que eu ainda não tinha visto: “Luis Fernando, considere este livro seu também, por favor. Divida 980 por três e você terá preciosa parte. Sua Clarice”. A lembrança de Clarice vale bem mais do que 980 cruzeiros. Mesmo com todas as correções monetárias acumuladas em 47 anos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A bela e a fera ou A ferida grande demais por Letícia Spiller


Letícia Pena Spiller, atriz brasileira que iniciou a carreira como uma das paquitas do antigo programa Xou da Xuxa, da Rede Globo, escolheu um dos contos que compõe o livro Clarice na Cabeceira, da Editora Rocco.

CONTO: A bela e a fera ou A ferida grande demais
DO LIVRO: A BELA E A FERA
APRESENTAÇÃO: Letícia Spiller

“NEM SEMPRE MEUS OLHOS contemplam aquilo que desejam ver, o que lhes apraz o coração, a contemplação traz a dor nua e crua, sem fuga para o êxtase. Êxito? Será esse o perdão?

Ver-se a si mesmo naquilo que pensamos que não somos?”

Bela-fera, bela-fera; a miséria pode provocar nobres sentimentos, fazer o belo se sentir feio.

Um encontro decisivo; a bela moça rica e acomodada, provocada pela imagem do mendigo desdentado, questiona a própria existência e é acometida por forte compaixão – a palavra já diz: com paixão – para uma outra realidade possível: “...Não. O mundo não sussurrava. O mundo gri-ta-va!!!! Pela boca desdentada desse homem ...”, ou ainda: “Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre e aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha ...”
Ela que sempre tivera as coisas facilmente à mão, apesar de não ter seguido seu chamado na vida, que era cantar, ou qualquer coisa que o valha, tinha a sorte de nascer rica e não passar dificuldades como a fome ... mas sua riqueza não a dignificava e ela sentia fome de viver.

Ela e o mendigo estavam zerados; aos dois faltavam oportunidades, perspectiva e fé.

Afinal, como diz o final do poema:

Não teremos nunca escolha diante do crucial, da crueza da vida
Somos o que somos
Adormecidos ou acordados
Plenos ou aturdidos
Dispersos ou abraçados

Postado por Irla

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O relatório da coisa por José Castello

Hoje falaremos, através das palavras de José Castello, sobre o conto O relatório da coisa, que também se encontra no livro Clarice na Cabeceira.

CONTO: O relatório da coisa
DO LIVRO: ONDE ESTIVESTES DE NOITE
APRESENTAÇÃO: José Castello

José Castello (Rio de Janeiro, 1951) é um escritor e crítico literário brasileiro. Está radicado em Curitiba e é autor de crônicas publicadas periodicamente no jornal O Globo e dos livros Inventário das Sombras e Fantasma, ambos publicados pela Editora Record; O Poeta da Paixão, publicado pela editora Companhia das Letras; e O Homem Sem Alma / Diário de Tudo, publicado pela Editora Bertrand. Seu mais recente livro é A Literatura na Poltrona, publicado pela Record.


CLARICE LISPECTOR DIZIA TER a capacidade de “enxergar a coisa pela coisa”. De abster-se das palavras. Usou palavras brutas e enigmáticas: “isso”, “it”, “ a coisa”. Era seu esforço para chegar onde as palavras não alcançam. Coisas que escapam à armadura dos nomes.

“O relatório da coisa” é um corajoso esforço para acessar esse mundo em que as palavras se tornam não só desnecessárias, mas absurdas. Ao coração selvagem em que nos debatemos. Mesmo com as melhores palavras, algo sempre escapa. Esse algo é a “coisa”.

Clarice exclui o relatório de sua literatura. “Esse relatório é a antiliteratura da coisa”, diz. Dispensa o conforto que as palavras nos oferecem. Seu relato – mas não é relato, é relatório – avança e avança, e não chega a coisa alguma. É justamente porque fracassa que ele delimita a coisa.

Clarice materializa a coisa em um relógio: não qualquer relógio, mas um relógio determinado, da marca “Sveglia”. Em italiano, “sveglia” quer dizer “acorda”. Palavras sempre remetem a novas perguntas: “Acorda para o quê, meu Deus?”, ele se pergunta.

Não importa saber se “O relatório da coisa” é um conto. Sem dúvida, é literatura. Seu relato é – e, nesse verbo que dispensa um objeto, reside sua potência. A literatura não se reduz a belas palavras. Ou é, ou não é. Se não é, fechamos o livro.

(FIM)

Postado por Irla

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A quinta história por Fernanda Torres

Dando continuidade as apresentações dos contos, publicados no livro Clarice na Cabeceira, da Editora Rocco, trazemos o texto de Fernanda Torres.


Fernanda Pinheiro Monteiro Torres (Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1965) é uma atriz brasileira. Filha do casal de atores Fernando Torres e Fernanda Montenegro, aos 13 anos, entrou para o Tablado.

O conto selecionado por ela foi:

CONTO: A quinta história
DO LIVRO: A LEGIÃO ESTRANGEIRA
APRESENTAÇÃO: Fernanda Torres

O QUE ESCREVER DIANTE DE UM CONTO em três partes em que o simples ato de matar uma barata na cozinha de casa ganha a dimensão de uma tragédia grega surrealista? Nada.

Não há o que acrescentar. Tenho até vergonha de escrever: Qualquer comentário me parece obsoleto.

CLARICE ME DEIXA MUDA.

Postado por Irla

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ClariCINE

"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano, e solitário”.

Assim somos nós, SERES HUMANOS, assim é Clarice Lispector e sua misteriosa MÁSCARA.

Seguindo nossa paixão por Clarice, sua personalidade e obras, nos reunimos (algumas das integrantes do Clube) para assistir ao Documentário Especial – Clarice Lispector, gravado pela TV Cultura, cuja protagonista, obviamente, é nossa DIVA, Clarice, que teve Gastão Moreira como apresentador.


Desde já recomendamos a todos os fãs de Clarice que o assistam!

O programa começa com a seguinte colocação “se fosse inventada uma escala para medir abalos sísmicos literários, por certo, tudo o que Clarice Lispector escreveu atingiria grau máximo”.

O apresentador faz, ainda, a advertência de que “ela era uma terremoto completo!” e completa dizendo ser “preciso reconhecer que para mergulhar na leitura de Clarice Lispector é necessário certo preparo psicológico”.

Sobre a gravação, é composta de uma entrevista realizada em 1977 por Julio Lerner, pouco antes de Clarice morrer, onde ela fala sobre suas origens, a família, o ofício de escritora, como começou a escrever e sobre seu último livro, que acabara de escrever e ainda não sabia o nome (A Hora da Estrela).

- Eu acho que quando eu não escrevo estou morta! diz.

- Bem, agora eu morri, vamos ver se eu renasço de novo... por enquanto estou morta!... acrescenta.

O programa ainda traz depoimentos da cineasta SUZANA AMARAL (que transformou em filme o último livro de Clarice: A Hora da Estrela), falando sobre as personagens da escritora e seus olhares subjetivos; MARILENA ANSALDI (atriz e coreógrafa. Pioneira na criação de espetáculos que unem dança, teatro e recursos multimídia, a intérprete-criadora é precursora da dança-teatro no Brasil), protagonista de “Um Sopro de Vida” falando sobre solidão, MARIA BETHÂNIA declamando alguns poemas de Clarice; e a amiga OLGA BORELLI, falando sobre sua relação de amizade com a escritora, bem como sobre a doença de Clarice, um câncer generalizado que veio a provocar sua morte.
“Mistura de prosa, confissão, discursos internos e poesia. Clarice sempre soube resolver nossos mais secretos medos”, mais uma verdade colocada por Gastão no inicio do programa.


Questionada sobre quando começa sua carreira literária, Clarice revela que “antes dos 7 anos já escrevia, inclusive inventei uma história que não acaba nunca. [...] Quando comecei a ler e escrever, comecei a inventar pequenas histórias”.
Sobre sua produção literária na adolescência, ela afirmou “ser caótica, intensa, inteiramente fora da realidade da vida”.

Ouvir de Clarice frases como:

- Tinha uma timidez de ousada. Sou tímida e ousada ao mesmo tempo.

Ou ainda:

- Eu não sou uma profissional. Eu só escrevo quando eu quero. Eu sou amadora, e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou com o outro, em relação ao outro. Faço questão de não ser uma profissional para manter a minha liberdade.

fazem-nos ficar ainda mais intrigadas e apaixonadas pela personalidade de uma Mulher que busca o autoconhecimento pelas palavras, pela escrita, e, por que não, pela literatura.

Através dos livros-infantis, romances, contos e crônicas, Clarice atingiu vários públicos. Quando lhe perguntam se ela sentia mais facilidade em comunicar-se com criança ou adulto, mostra-se por inteiro. “Quando me comunico com criança é fácil, por que sou maternal. Quando me comunico com o adulto, na verdade, estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, aí é difícil. O adulto é triste e solitário. A criança é fantasia, solta”.

Essas e muitas outras falas de Clarice, no decorrer do documentário, reafirmaram nossa paixão por essa mulher que não teve medo de desvendar a si mesma.

Postado por Irla

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A língua do "P" por Fernanda Takai



Fernanda Barbosa Takai, musicista e cronista brasileira também selecionou um dos contos de Clarice, para compor o livro Clarice na Cabeceira.

Para os que não conhecem a vocalista da banda mineira Pato Fu, Fernanda se mostra uma profissional multifacetaria, pois além de cantar, toca guitarra, violão e compõe para a banda.

Ela escolheu, de Clarice Lispector:

CONTO: A língua do “P”
DO LIVRO:A VIA CRUCIS DO CORPO
APRESENTAÇÃO: Fernanda Takai

EU QUE PENSAVA QUE CONHECIA BEM Clarice me vi com um exemplar de A via crucis do corpo ainda virgem nas mãos. São textos bem desavergonhados e intensamente concisos. Um verdadeiro atestado de excelência criativa.

Neste conto a autora nos pega no contrapé ao costurar, a partir de uma brincadeira infantil, um episódio tragicômico na vida de uma professor de inglês. Nisso ela é mestre: magnificar coisas que acontecem ao nosso redor. Seus personagens são aqueles que ninguém quer ver. Um bocado de gente comum passando pelo extraordinário cotidiano que se esconde pela rotina e pelo enfado.

Se eu tivesse lido o conto sem saber o nome da autora, talvez não acertasse sua procedência. Clarice nos entrega mais um sinal de sua escrita versátil.
Seja nos livros infantis, romances, crônicas, cartas ou contos, ela faz falta. Depois de uma leitura assim, me pego mais apaixonada ainda por personagens como Cidinha, que gostava da perfeição, mas por conta de um súbito despudor, salvou a própria vida.

Sepe vopocêpê nunpuncapa paparoupou prapa lerper seuspeus conpontospos, prepepaparepe-sepe: nãopão vaipai apabanpandoponápá-lospos japamaispais!

Postado por Irla

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A repartição dos pães por Cora Rónai

Um pouco mais de Clarice na Cabeceira, por Cora Rónai.



Para os que não conhecem Cora, uma pequena apresentação:
Cora Rónai é uma jornalista brasileira, esposa do cartunista Millor Fernandes, que começou sua carreira em Brasília, tendo trabalhado no Jornal de Brasília, no Correio Braziliense e nas sucursais da Folha de S. Paulo e do Jornal do Brasil. Em 1980 voltou para o Rio de Janeiro. Em 1982 deixou o Jornal do Brasil, ao qual retornaria alguns anos depois, para dedicar-se à literatura e ao teatro infantis.
Pioneira do jornalismo de tecnologia, lançou em 1987, no Jornal do Brasil, a primeira coluna sobre computação da grande imprensa brasileira. Usuária de computador pessoal desde 1986, usava, já então, o estilo de escrita coloquial que caracteriza o seu trabalho, seja na área cultural, seja na área tecnológica.

E agora, o conto selecionado, por ela, para compor o livro dos "preferidos" pelos leitores famosos de Clarice.

CONTO: A repartição dos pães
DO LIVRO: A LEGIÃO ESTRAGEIRA
APRESENTAÇÃO: Cora Rónai

O QUE “A REPARTIÇÃO DOS PÃES” tem de encantador é o lado trivial da narrativa, que nasce a partir de uma situação corriqueira, íntima dos leitores. Quem é que já não foi a um almoço ou jantar por obrigação, quem é que já não se viu em silêncio numa sala cheia de estranhos, sonhando em sair dali o mais rápido possível?

O tempo da vida é curto, há um mundo lá fora, mas a obrigação nos prende ali.

Gentileza nem sempre gera gentileza. Quem convida não percebe o peso da âncora que prende os convidados, e o quanto lhes custa a boa educação. Já saí exausta de muitos almoços e festas dessas, que de festivos não têm nada, perplexa com a circunstância e me perguntando o que leva alguém a gastar tempo, boa vontade e dinheiro para aborrecer o seu semelhante.

Na história de Clarice, porém, a mesa farta e caprichada promove uma sutil reviravolta, e o sábado, que parecia jogado fora, ganha novos contornos. Não sei se a situação se repetiria hoje, em que meio mundo está de dieta e a outra metade não bebe por ordens médicas, mas a moral é eterna: a boa comida é sempre uma espécie de milagre.

Postado por Irla

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O ovo e a galinha por Claire Williams



A escolha de Claire Williams, especialista em literatura luso-brasileira da Universidade de Oxford, foi O ovo e a galinha, conto apresentando no I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia, em viagem realizada por Clarice Lispector com a amiga Olga Borelli. No dia de sua apresentação sente-se indisposta e pede a alguém que leia o conto, não apresentando a fala sobre a magia que havia preparado para a introdução da leitura.

CONTO: O ovo e a galinha
DO LIVRO: A LEGIÃO ESTRAGEIRA
APRESENTAÇÃO: Claire Williams

ESCORREGADIÇO, LÍQUIDO, VISCOSO ... Este conto se acomoda à forma da mente de quem o lê. O enredo é deliciosamente mínimo: “De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo [...] E me faz sorrir no meu mistério. “A mera vista desse ovo faz estalar na cabeça da narradora milhões de ovos-ideias e ovos-imagens que disparam em mil direções. É um puzzle de pedacinhos de casca de ovo. Tem múltiplas dimensões: terror, humor, romance, tragédia, ficção científica, geometria, filosofia, suspense, espionagem, história, gastronomia, anatomia, viagens no tempo e no espaço, genealogia, física, absurdeza, lógica, fórmulas matemáticas, comédia infantil ... tudo... e nada. É um conto em que cada leitor encontrará uma frase, pelo menos uma, que o toca, que o faz ponderar. É um conto em que se descobre algo novo em cada leitura, e em que se perde. Nunca o entendo, mas não e propriamente para entender. Se lê com os sentidos, mas não tem um sentido propriamente dito. A própria Clarice levou este conto para um Congresso de Bruxaria na Colômbia em 1975 para representar a obra dela e confessou aos congressistas: “É misterioso até para mim”. De um ponto de vista pessoal, o primeiro artigo de crítica literária que eu consegui publicar tratou deste conto e noções de maternidade e filiação. Marcou, assim, a eclosão da minha carreira. A palavra "galinha” aparece apenas 53 vezes e a palavra “ovo” 164 vezes, em quase todas as frases, cada “o” uma forma ovóide, dominando o texto. Não nos esclarece sobre a velha questão de quem chegou primeiro, mas acabamos sabendo, sem dúvida, quem desata mais atenção e inspiração.

Postado por Irla

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O crime do professor de matemática por Carlos Mendes de Sousa

No período de férias demos uma pausa na sequência de publicações acerca do livro Clarice na Cabeceira, da Editora Rocco.

Pois bem, estamos de volta, e dando andamento a nossa proposta inicial, trazemos a exposição de
Carlos Mendes Sousa, professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, um dos principais nomes da mais nova geração da crítica literária portuguesa, sobretudo no âmbito da
poesia contemporânea. É autor de um livro de referência sobre Eugênio de Andrade (1992), organizou, com Eunice Ribeiro, uma Antologia da Poesia Experimental Portuguesa (2005) publicou ensaios fundamentais sobre Cesário Verde, Jorge de Sousa Braga, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava ou Eduardo Lourenço, muitos deles publicados na revista Relâmpago, de que é um dos directores. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a Clarice Lispector, daí tendo resultado uma obra maior na bibliografia sobre a autora, Clarice Lispector. Figura da Escrita (2000), obra com a qual conquistou o Grande Prêmio de Ensaio da APE. Para o Curso Breve de Literatura Brasileira, coleção dirigida por Abel Barros Baptista nos Livros Cotovia, posfaciou os volumes Laços de Família, de Clarice Lispector, e A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto.


CONTO: O crime do professor de matemática
DO LIVRO: LAÇOS DE FAMÍLIA
APRESENTAÇÃO: Carlos Mendes de Sousa
“Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele
próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da
chapada, a encarar de olhos vazios o sol”

OS DOIS ANOS QUE ANTECEDERAM a minha entrada na Universidade, como estudante de um curso de Letras, foram para mim os tempos de leitura mais intensa e mais caótica de que tenho memória. Nesses anos, dirigia-me quase invariavelmente todas as tardes até um antigo edifício do século XVI e subia a uma sala, donde se podiam entrever os claustros manuelinos de um mosteiro, lugar especialmente inspirador para leituras silenciosas. Era aí, junto à igreja de Santa Cruz, em Coimbra, que na época funcionava a Biblioteca Municipal: era aí que eu permanecia tardes inteiras, imerso num mundo de jornais, revistas e livros. Depois ia para casa carregado de empréstimos de ficção e de poesia.



Contudo, não foi nesse tempo de intermináveis leituras desordenadas que me vieram ter às mãos as obras de Clarice Lispector. Mas foi quase logo a seguir. Descobri Clarice quando já freqüentava Faculdade de Letras de Coimbra, ainda que não tivesse estudado a sua obra na disciplina de Literatura Brasileira ou em qualquer outra cadeira. Foi no meu segundo ano da licenciatura, precisamente há trinta anos, que se deu a descoberta, na biblioteca do Instituto de Estudo Brasileiros. Este já era um tempo de leituras dirigidas, e andava eu a fazer pesquisas sobre Banguê, de José Lins do Rego, quando deparei com o nome Lispector nas estantes. Dois anos após a morte Clarice era ainda muito pouco conhecida em Portugal. Atraído pelo nome da escritora e pelo título do livro, requisitei A maçã no escuro. Que obra extraordinária! Tão diferente e difícil e desafiadora. Veio-me, então, de imediato, o desejo de ler tudo o que a autora escrevera.



Não consigo precisar por que ordem fui devorando os livros de Clarice, mas sei que entre os primeiros que li, numa iniciática fase de deslumbramento, se encontrava justamente Laços de Família, um dos mais belos volumes de contos da língua portuguesa.



Nas suas narrativas de longo fôlego é muito marcante a tensão entre a irrupção do fragmentário e os propósitos arquitetônicos de fechamento. Em A maçã no escuro encontramos largos painéis narrativos que delineiam quadros, como se tratasse de micronarrativas independentes. Nos textos breves, em concreto nos contos de Laços de Família, deparamos com um apuradíssimo equilíbrio de construção, mas também aqui, embora menos perceptíveis, ocorrem as mesmas tensões de toda a escrita clariciana, subsumidas na oscilação dialética entre o pendor formalizante, de que a estrutura de cada texto bem dá conta, e o desconcerto do imprevisível. Sob o traço polido da escrita, irrompem em todos os contos deste volume o sobressalto, a crispação, o assombro. A descida às galerias da alma ocorre nas mais vulgares situações do dia a dia. A existência turbulenta e selvagem, os purgatórios da paixão terreal, toda a dor e júbilo de ser e existir são interceptados no mínimo traço, no menor gesto: uma veia ou uma ruga anunciada no rosto intocado, um enterro ritualizado de um cão substituto, no conto que aqui apresento.



Os seres são confrontados consigo mesmo no meio de circunstâncias tão insignificantes, que as conseqüências, por contraste, revelam um lugar espantoso: a boca de um cego (“Amor”), boca escura a abrir e a fechar, avoluma-se e devém imagem obsessiva e perturbante; e esse cão desconhecido de “O crime do professor de matemática” torna-se, no enterro, o símbolo da própria irresolução agigantada – “algo realmente impune e para sempre”. Mansa e obscuramente ronda a ameaça: a todo o momento pode chegar a “crise”. Contudo, o perigo de dissolução a que se vêem expostas as personagens claricianas é, paradoxalmente, a mais funda energia desses seres. E não há apaziguamento possível porque não mais poderá segurar a vida, mesmo no interior das células protetoras do núcleo familiar. A este respeito é bem expressivo o desfecho dado ao professor de matemática: “E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio da sua família”.



Quando li este conto pensei logo no romance A maçã no escuro. Naturalmente que o mais imediato ponto de contato entre os dois textos decorre Fo fato de os protagonistas serem homens, um estatístico e um professor de matemática, isto num universo ficcional marcado pela predominância das personagens femininas. Muito mais haveria para dizer sobre aquilo que há de comum entre os textos e que não cabe nesta breve nota. Lembro apenas o significado simbólico do percurso de Martim em A maçã no escuro. A sua caminhada, feita de avanços e recuos, poderá ser perspectivada como ato penitencial pelo “crime” cometido. No final do percurso veremos o anti-herói que nasce das provas, no meio do que falha, do que é incompletude, tropeço. Afinal, não houve crime. Tudo é questionamento nesse processo em que o homem se reconstrói a partir da redescoberta da linguagem. No início de “O crime do professor de matemática”, o trajeto do homem suscita igualmente interpretações simbólicas. Antes de mais, o afastamento em relação à comunidade e a subida até ao ponto mais elevado da colina. Depois, o relevo concedido ao olhar e aos modos de ver, complementados pelo motivo da miopia (recorde-se o gesto repetido de pôr e tirar os óculos). Anuncia-se aqui uma operação que, em tudo, aponta para as conseqüências de uma visão de profundidade. O conto revela um dos eixos nucleares da obra de Clarice – a relação entre o humano e o animal – e confronta-nos com uma das mais violentas percepções subterrâneas deste universo literário: o território da culpa.



Estamos perante um texto que, envolvendo o maior disfarce, a partir da recorrente figura clariciana do professor, talvez seja um dos mais autobiográficos contos de Laços de Família. Mas como sempre acontece na obra da autora, essa dimensão é admiravelmente transcendida. Em 1946, Clarice publicara num jornal brasileiro um conto intitulado “O crime” (Letras e Artes, 25 de agosto). É a própria Clarice que associa o texto a um episódio de ordem biográfica: o abandono de um cão (Dilermando), quando, nesse ano de 1946, se muda de Nápoles para Berna. Disso mesmo deu conta nas cartas que escreveu às irmãs. A tentativa de recuperação da perda manifesta-se obstinadamente pela via literária: “Anos depois entendi que o conto simplesmente não fora escrito. Então escrevi-o. Permanece o entanto a impressão de que continua não escrito”. No final dos anos 1950, reescreve o conto, expandindo-o. A “impressão” a que a autora alude reenvia claramente para a culpa não resolvida, motor que ativará a compulsão em torno da escrita sobre o animal. Nos últimos tempos, outro cachorro entrará na vida de Clarice. Mas Ulisses como que entra pela porta da frente para tornar-se quase só linguagem (veremos essa manifestação em Um sopro de vida). O cão napolitano precisou de um duplo; e se o conto pode ser lido como um réquiem, também podemos lê-lo como uma das mais profundas reflexões sobre a questão da identidade.

Desde esse longínquo dia de 1979 em que casualmente me veio ter às mãos A maçã no escuro, que, de um modo ou de outro, não deixei de ter Clarice na cabeceira. Ao cabo de muitos anos, nunca me cansei de ler Clarice Lispector. E posso dizer que a sua obra continua a solicitar-me mais do que um mero impulso de revisitação. Ela continua a representar o próprio sentido inaugural da leitura. Isto é, leio sempre os seus textos como se os lesse pela primeira vez.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ele me bebeu por Carla Camurati


Esta é Carla de Andrade Camurati cineasta e atriz brasileira que desde 2007 preside a Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Ela participou da seleção de contos que deu origem ao livro Clarice na cabeceira e escolheu:

CONTO: Ele me bebeu
DO LIVRO: A VIA CRUCIS DO CORPO
APRESENTAÇÃO: Carla Camurati

DURANTE ALGUNS ANOS da minha vida, eu e meu querido amigo José Antonio Garcia gostávamos de passar a noite lendo, bebendo e fumando Clarice Lispector, eu um verdadeiro torpor em que às vezes tínhamos acessos de risos e às vezes chorávamos muito ... Ficávamos ali, consternados com as histórias das pessoas que em voz alta líamos um para o outro horas a fio. Parecíamos conhecer todos aqueles personagens. Ler Clarice Lispector é uma das viagens mais incríveis dentro da Alma humana. Podemos ver todas as sutilezas que na realidade protagonizam as nossas vidas: as inseguranças, os defeitos, as vergonhas e as alegrias. Todas ali expostas, mas expostas com tanto afeto e de forma tão contundente que em mim esse olhar que ela tem sobre as pessoas e o mundo mudou a minha maneira de perceber o outro. Desenvolveu em mim, com certeza, um olhar mais agudo e ao mesmo tempo mais generoso ... que muito me ajuda a viver nesse mundo.

Foram momentos deliciosos da minha vida, muito emocionantes! Escrevemos três roteiros juntos.

Um contava a história de Clarice, na qual eu faria uma das fases da sua vida. O filme começava com Clarice menina em Recife e ia até o final de seus dias.

Os outros dois eram adaptações desse saboroso livro A via crucis do corpo. Hum, que descoberta foi esse livro nas nossas noites! Tivemos uma febre por ele ... O primeiro roteiro que realizamos foi “O corpo”. José Antonio fez um filme muito especial, muito premiado e, infelizmente para nós, muito mal lançado. O elenco era? Antonio Fagundes, Marieta Severo e Claudia Gimenez. Eu fazia uma participação especial.

O outro é o meu conto escolhido, infelizmente não tenho mais o José Antonio ao meu lado para filmarmos juntos esse roteiro. “Ele me bebeu” é uma das mais interessantes tramas de amor contemporâneas que eu já li.

É uma história de amizade, competitividade, identidade, vaidade e renascimento. Tudo sem perder a delicadeza, como só Clarice sabia fazer. Aproveitem, agora, essa surpreendente história de Aurélia Nascimento e Serjoca passada nas noites curvas de Copacabana...

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sábado, 26 de junho de 2010

Perdoando Deus por Beth Goulart

Dentre tantas figuras representativas do cenário das artes não poderiam deixar de fora, da coletânea de contos que compôem o livro Clarice na cabeceria, aquela que veio a interpretar Clarice Lispector na peça Simplesmente EU, Clarice Lispector,
Beth Xavier Miessa Goulart popularmente conhecida como Beth Goulart, atriz brasileira, filha dos também atores Paulo Goulart e Nicette Bruno.

CONTO: Perdoando Deus
DO LIVRO: FELICIDADE CLANDESTINA
APRESENTAÇÃO: Beth Goulart

QUEM ANDANDO PELO JARDIM BOTÂNICO, ou pela Lagoa Rodrigo de Freitas ou ainda assistindo a um pôr do sol no Arpoador não se sentiu parte de alguma coisa maior, uma nova dimensão, parte de uma teia invisível e permanente que liga todas as coisas numa relação de interdependência de vida? Esta sensação é muito forte e abre em nossa consciência um espaço para invisível, o inominável, o absoluto ou ainda ao que chamamos de Deus. Esta força estranha e atraente que ora nos abraça ora nos repreende de acordo com a lei de nossas ações é o grande mistério do mundo.

Que relação podemos ter de intimidade e respeito, reverência ou medo diante do infinito e da grandeza, nós simples humanos, mortais e pecadores. Este conto nos leva a uma viagem pelo raciocínio de uma mulher que tocada pela beleza da vida se sente mãe de Deus, da Terra, das coisas e do mundo. É a intimidade perturbadora de que o micro está no macro e vice-versa.

Em sua prepotente eloqüência e liberdade, não percebe a presença reveladora de um rato morto em seu caminho, símbolo do que é pequeno e suo e de seus limites. Quantas vezes as lições da vida estão disfarçadas de pequenos acidentes cotidianos, pequenos tapas que levamos para acordar a consciência. Sua revolta se inicia pelo terror, seguido da ira com sentimentos de vingança infantil pela rejeição de Deus, ou pela simples e corriqueira expressão – Por que eu?

Aos poucos, ao se deparar com a conexão dos dois fatos e seu nexo, vê-se forçada a entender que amar é muito mais que aceitar a compreensão, é aceitar a incompreensão, que devemos amar ao que se é e não ao que gostaríamos que fosse, e que somos todos iguais, dependendo do ponto de vista. Para se amar a Deus é necessário amar todas as coisas vivas, o planeta, toda a humanidade, amar o bom e o belo, mas também amar o erro e a dor. A totalidade dos contrários, o caos, o tão, a música e o silêncio, entender e perdoar nosso limite e nosso tamanho para poder aumentá-lo. Não inventar Deus mas sentir Deus.

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

A procura de uma dignidade por Benjamin Moser


Benjamin Moser, norte-americano, nascido em Houston e formado em História. Conheceu a obra de Clarice por acaso, na universidade, quando escolheu estudar português após fracassar no aprendizado de mandarim (chinês). Selecionou, no livro Clarice na cabeceira, dentre os muitos contos de Clarice, o seguinte:

CONTO: A Procura de uma dignidade
DO LIVRO: LAÇOS DE FAMÍLIA
APRESENTAÇÃO: Benjamin Moser

UMA JORNALISTA TELEFORNOU para desmarcar uma entrevista com Clarice Lispector, semanas antes de sua morte. Clarice aconselhou à jornalista, Norma Couri, que não desmarcasse, talvez sentindo que não haveria outra ocasião. Ficaram um tempo falando quando Clarice disse: “Eu ando sempre na contramão.” Norma demorou para entender que Clarice não estava falando metaforicamente: costumava andar literalmente de encontro ao fluxo dos transeuntes nas ruas do Rio de Janeiro.

“Meu drama: é que sou livre”, escreveu. Mas sentindo, ao lê-la, que a liberdade sempre foi, para ela, uma conquista árdua, um bem que nunca chegou a possuir seguramente, uma luta travada contra uma multidão, uma andança em contramão. A procura da liberdade contra um mundo todo feito para negá-la é um dos grandes temas de Clarice Lispector, desde Virgínia, de O Lustre, cuja liberdade é uma cara e frágil conquista: “Tomou um guardanapo, um pãozinho redondo ... com um esforço extraordinário, quebrando em si mesma uma resistência estupefata, desviando o destino, jogou-os pela janela- e assim ela conservara o poder”.

Como as personagens nas primeiras obras de Clarice Lispector, Virgínia é uma jovem; nas obras que se seguiram a O Lustre, as rebeldes adolescentes amadurecem, como sua autora, e se transformam em mães e donas de casa, até que, nos últimos anos de sua vida, as protagonistas de Clarice viram viúvas, avós: senhoras, como a sra. Jorge B. Xavier, a heroína desse conto, que nem um nome próprio tem. Consumada por um desejo patético por Roberto Carlos, fisicamente presa nas entranhas do estádio do Maracanã, não está mais à procura de uma liberdade: agora, ela só quer uma mais modesta”dignidade”. O tempo encurtando, com uma urgência mais palpitante ainda, ela só pede conservar o que resta de seu poder.

É nessa dramatização da crise de uma pessoa que bem sabe que a morte está se aproximando e que procura, por uma última vez que seja, andar na contramão, que vemos o poder sempre espantoso de Clarice Lispector, de nos ajudar a sentir “até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador”.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Fuga por Artur Xexéo

Dando sequência ao livro Clarice na cabeceira, apresentamos:

CONTO: A Fuga
DO LIVRO: A BELA E A FERA
APRESENTAÇÃO: Artur Xexéo


Artur Xexéo é jornalista. Colunista e editor do "Segundo Caderno" do veículo O Globo, e introduz seu conto selecionado assim:

QUANDO ESCREVEU “A FUGA”, Clarice tinha seus vinte e poucos anos e estava publicando seus primeiros contos. Ainda não tinha lançado Perto do coração selvagem ainda não era uma escritora famosa. Ainda não era a Clarice que viria a ser. É nesses contos, e especialmente em “A fuga”, que aparece a mulher que seria seu personagem constante por muito tempo e que revela as inquietações de Clarice àquela época. É uma mulher que tem medo, que está decidida a tomar um novo rumo, mas que ainda não sabe bem qual é. Ela quer se transformar, mas não sabe em quê. É uma mulher cansada que toma uma resolução. No caso do conto, a resolução não é das mais sofisticadas: ela sai de casa e não pretende voltar. Aproveita um dia de chuva com o que acredita ser a liberdade. É uma mulher confusa, pronta para novas descobertas. Ela acredita que o mundo vai mudar logo após virar uma esquina. Vivendo um casamento sem graça há 12 anos, ela agora sente-se independente só porque tomou a decisão de sair de casa. A certa altura, ela mesma se define: “Eu era uma mulher casada e agora sou uma mulher”. Vinte e pouco parágrafos depois de anunciar sua suposta liberdade, “a mulher com medo” de Clarice retorna à casa. Deixa de ser uma mulher. Volta a ser uma mulher casada.

A protagonista de “A fuga” tornou-se um lugar-comum nos primeiros contos de Clarice Lispector. É a mulher insatisfeita que, mesmo que opte pela independência, pela liberdade, não sabe muito bem o que fazer com elas e acaba retornando a rotina de sempre. Em às vezes, a mesma “mulher cansada” aparece como uma solteirona solitária. Ou como uma velha que se arrepende de não ter escolhido determinado caminho muitos anos atrás. A mulher das primeiras experiências de Clarice com a ficção está sempre diante da possibilidade de um novo caminho. Mas não tem coragem de segui-lo. Ou percebe que as mudanças talvez só aconteçam mesmo em caminhos internos. Com um passado frustrado e um presente medíocre, ela perde-se nos labirintos do futuro. E caminha, implacavelmente, para um final nada feliz.

Relido hoje, é impressionante como “A fuga” já anunciava a mulher- e escritora – que Clarice se tornaria e, principalmente, como ele desenhava com previsão a insatisfação da mulher com o papel que a sociedade da primeira metade do século lhe reservava. Essa mulher só viria à tona quase duas décadas depois. Mas já existe nos primeiros contos d Clarice, aqueles escritos no comecinho dos anos 1940, certamente maturados no fim dos anos 1930. A mulher de Clarice Lispector estava sempre imaginando que hoje, finalmente hoje, alguma coisa diferente iria lhe acontecer. Mas, ao fim de cada um dos contos – às vezes, a solução para “a mulher com medo” era o suicídio -, descobria-se que não bastava querer, esperar, imaginar. “A mulher cansada” de Clarice tinha que agir.

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Amor por Affonso Romano de Sant´Anna


Affonso Romano de Sant'Anna, escritor brasileiro foi cronista no Jornal do Brasil (1984-1988) e do jornal O Globo até 2005. Atualmente escreve para os jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense.

Affonso escolheu, para comentar, no livro Clarice na cabeceira:

CONTO: Amor
DO LIVRO: LAÇOS DE FAMÍLIA
APRESENTAÇÃO: Affonso Romano de Sant´Anna

ESTE CONTO “AMOR” (Laços de Família) me parece exemplar para o estudo de um dos temas mais fortes de Clarice – a epifania. Tratei disto primeiramente em Análise estrutural de romances brasileiros (1974) e mais amplamente no ensaio “ O ritual epifânico do texto” (1988), que acompanha o volume A paixão segundo G.H. editado pela UNESCO/UFSC e que republiquei em Que fazer de Ezra Pound (Imago).

A trajetória da personagem Ana – simples dona de casa – que certo dia sai da “raiz firme das coisas” e penetra “a hora perigosa da tarde” experimentando uma revelação/crise/náusea que a expulsa da “cegueira” cotidiana, é o movimento que vai se repetir em outros contos e nos romances de Clarice. Seus personagens estão sempre sendo submetidos a um conhecimento súbito da “verdade” em meio à banalidade da vida. Há um “rito de passagem”, uma “iniciação” perigosa e sublime, que arrebata não só seus personagens, mas também o leitor e a própria narradora.

E desse arrebatamento que fala toda a obra de Clarice. E a melhor literatura é isso: é a fratura, o corte, o impacto dentro da trivialidade da vida. Clarice dedicou sua vida a revelar este espanto. E é este espanto que deixa os seus leitores igualmente atordoados.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Menino a bico de pena por Adriana Lisboa

Dando continuidade aos post´s, acerca do livro Clarice na cabeceira, da Editora Rocco, escolhemos o:

CONTO: Menino a bico de pena
DO LIVRO: FELICIDADE CLANDESTINA
APRESENTAÇÃO: Adriana Lisboa

Adriana Lisboa é uma escritora brasileira, autora de nove livros de ficção e integrou várias antologias de contos no Brasil e no exterior.

COMO CONHECER JAMAIS O MENINO. Lá está ele, um ponto no infinito, mas inteiramente atual, feito somente de um agora que já é outro agora. No conto “Menino a bico de pena” Clarice desenha. Não pode ser com carvão. É preciso desenhar o menino com o traço mais fino de todos. Com o traço que, como o próprio menino, seja ainda só atualidade e infinitude. Um traço preciso como a palavra de um mestre zen, que nunca sobra, que nunca falta. E espaçoso em seus limites, ao mesmo tempo, porque só aquilo que sabe ser inteiramente agora pode passear com desenvoltura sobre a vertigem do infinito: esse menino, a bico de pena, antes da domesticação. Antes de virar humano e rombudo, presa do tempo adulto cotidiano. Antes de abrir mão, de uma vez por todas, da sua infinitude, da sua genuína loucura, cooperando - assim como fizeram os outros homens antes dele, e o Deus desses homens também. Por enquanto, o mundo fora do menino é aquilo que está dentro dele: o que ele enxerga (e só existe por isso: porque ele enxerga), o que se firma e o que cambaleia (quando ele se move, é o chão que se move). E o menino, ainda em seu retrato a bico de pena, antes de qualquer destino trágico e de crescer em médico ou carpinteiro, é aquele que mantém a curiosidade diante da fralda molhada ou do pingo de baba: porque o mundo é novo e se aquilata em maravilhas por minuto. Mesmo que ele já saiba que não morrer é mãe, e que é preciso saber chorar por isso.

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ruído de passos por Adriana Falcão

Iniciando a sequencia de posts, de apresentações dos contos de Clarice Lispector, do livro Clarice na cabeceira ,trago comentários de Adriana Falcãocom sobre seu conto selecionado.



Para os que não conhecem ela é é uma roteirista e escritora brasileira. Atualmente, roteirista da TV Globo, escreve para séries como Comédias da Vida Privada e A Grande Família, além de roteiros para cinema e a série Mulher.

CONTO: Ruído de passos
DO LIVRO: A VIA CRUCIS DO CORPO
APRESENTAÇÃO: Adriana Falcão

“Sabia, gosto de você chegar assim, arrancando páginas dentro de mim desde o primeiro dia.”
Chico Buarque

GOSTO QUANDO CLARICE chega assim e me dá uma rasteira.

Aconteceu com “Ruídos de passos”.

Comecei a me apaixonar por dona Cândida Raposo nas primeiras linhas do conto.

Quem não se apaixonaria por uma velhinha de 81 anos que tem vertigem de viver?

“A altitude”, “o verde das árvores”, “a chuva”, “arrepios com Liszt”, “perfume de rosa”, e vamos compreendendo a vertigem de dona Cândida. Até que ela nos surpreende, quando vai ao consultório médico se queixar que “ainda tem a coisa”. Além de “a coisa”, dona Cândida também se refere ao seu desejo de prazer como “o inferno”. O diagnóstico do médico é preciso: “é a vida”.

Quando achamos que era isso, que idéia corajosa, um conto sobre uma velhinha aristocrática que ainda sente volúpia sexual, e decide, sem mais alternativas, resolver seu problema sozinha, claro que Clarice vai além.

A filha que espera no carro, lá fora, o filho morto na guerra e “a intolerável dor no coração de sobreviver a um ser adorado”, e lá vou eu me apaixonando cada vez mais por essa dona Cândida, gente, bicho, ser vivo. E não é que ela resolve se satisfazer sozinha, todas as noites, “sempre tristes”, “esperando a bênção da morte?”

O ruído de passos de seu marido, Antenor Raposo, me assusta como um filme de suspense.

E eu sinto a vida como um filme de suspense, e adoro e odeio minhas vertigens.

Postado por Irla

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Clarice na cabeceira

A leitura dos textos, contos, romances, enfim dos livros de Clarice Lispector nos fez encontrar a nós mesmas. Se você não tiver paciência para ler muito basta apenas uma frase para transformar o seu mundo.

E essa paixão, que nos toma, pelos escritos de Clarice, impulsiona-nos a vontade de dividir, de ver mais e mais pessoas achando seu eu perdido na rotina e no cotidiano.

Nesse sentido a Editora Rocco foi muito feliz publicando Clarice na cabeceira livro no qual leitores famosos escolhem seus contos preferidos e comentam-nos. Não bastasse isso, a editora doou uma coleção completa de Clarice Lispector para cada uma das bibliotecas indicadas pelos leitores convidados.

Então, com o desejo de vê-los apaixonados pela Clarice, transcreveremos a introdução do livro e os comentários de leitores, famosos, sobre seus contos selecionados.

Apresentamos-lhes “Clarice na cabeceira”

Introdução

Clarice na cabeceira é uma seleção afetiva de 22 contos de Clarice Lispector feita por leitores que se dedicam a criar “instantes de beleza” em seus trabalhos: são escritores, atrizes, cineastras, cantoras, críticos literários e jornalistas. A frase de Guimarães Rosa ecoa no texto que cada leitor convidado escreveu: “Clarice, eu não leio você para a literatura, mas para a vida”. Esta frase tocou tanto a escritora a ponto de ela registrá-la numa crônica em sua coluna no Jornal do Brasil.

Clarice Lispector sempre declarou seu amor por aqueles que tinham paciência de esperá-la através da palavra escrita. Ainda em vida, ela recebeu o carinho dos leitores sob diversas formas. Mas quem é esse personagem chamado leitor? Clarice respondeu: “O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor”.

Desde que Clarice Lispector nos deixou, novas formas de declarar seu amor por ela e por sua obra foram encontradas. Uma legião de fãs cresce a cada ano, são principalmente jovens que fazem de Clarice o seu livro de cabeceira e gostam de registrar essa paixão nos seus diários virtuais na internet. Os números impressionam: no Google há mais de um milhão de entradas para Lispector no mundo todo e cerca de 900 mil em português, 642 mil referências para blogs e 57 mil para fotologs. No Orkut são 150 comunidades associadas ao seu nome, num total de 260 mil pessoas. Alguns títulos dessas comunidades retratam como os leitores se sentem diante da obra de Clarice: “Eu amo Clarice Lispector”, “Clarice Lispector me lê”, “Clarice Lispector fala por mim”, “Clarice Lispector me entende”.

Clarice está no mundo virtual, no cinema, no teatro, na dança, na televisão, na música. Ela continua atravessando as fronteiras e cativando leitores de todos os continentes. É traduzida em línguas mais conhecidas como inglês, francês, italiano, alemão e espanhol, e em línguas raras como croata, coreano, finlandês, sueco, hebraico, grego, tcheco, russo, catalão, turco e japonês. Objeto de inúmeras teses acadêmicas no Brasil e no exterior (onde destaca-se como a autora brasileira mais estudada), ocupa um lugar de destaque numa pesquisa internacional desenvolvida pelo projeto Conexões Itaú Cultural – Mapeamento da Literatura Brasileira: depois de Machado de Assis, seu nome é o mais lembrado pelos tradutores, professores e bibliotecários estrangeiros.

Gregory Rabassa, o renomado tradutor americano de Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Mario Vargas Llosa e da própria Clarice, classificou-a como um dos mais influentes escritores brasileiros, descrita como a Kafka da ficção latino-americana. Quando ele fala sobre Clarice, seu comentário não se restringe ao aspecto literário: “Ela era tão bela, fiquei chocado ao encontrar uma pessoa rara que se parecia como Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf”. (New York Times, 11 de março de 2005).

Vivendo numa aldeia global, e mesmo assistindo ao surgimento dos livros virtuais, a obra de Clarice Lispector aumenta seu contingente de leitores porque há o companheiro de todas as horas à nossa espera na cabeceira.

Clarice na cabeceira reúne contos de cada um dos livros de sua produção contística: Laços de família (1960), A legião estrangeira (1964), Felicidade Clandestina (1971), A via crucis o corpo (1974), Onde estivestes de noite (1974) e A bela e a fera (1979).

Desde Laços de família, ela apresenta uma nova narrativa dissolvendo os esquemas naturalistas, segundo os quais um conto seria uma história com início, meio e fim. A publicação desta obra se deu no momento em que a escritora retornava ao Brasil, após 16 anos residindo no exterior, ao lado do marido diplomata e dos filhos. Sua volta marcou o reinício de sua trajetória literária, pois seus três primeiros romances datavam da década de 1940 e a publicação de Alguns contos (1952), pelo Ministério da Educação e Saúde – contendo seis contos de Laços de família – não teve nenhuma repercussão. A recepção de Laços de família foi muito bem-sucedida levando a mesma editora que lançou o livro de contos a também publicar no ano seguinte o romance A maça no escuro.

Foram os contos, portanto, que colocaram Clarice Lispector mais próxima dos seus leitores. Isso não significa que desde a estréia do romance Perto do coração selvagem (1943) ela não tenha sido reconhecida como um novo talento da literatura brasileira. No entanto, quando a revista Senhor publicou, no final da década de 1950, contos como A menor mulher do mundo, Feliz Aniversário e A imitação da rosa, a resposta positiva do público foi imediata e despertou o interesse das editoras.
O segundo livro, A legião estrangeira (1964), concomitante com a publicação de A paixão segundo G.H. no mesmo ano, reuniu entre outros, alguns contos publicados na Senhor, mas a sua recepção se expandiu quando o grande público pôde ler alguns deles na coluna de Clarice no Jornal do Brasil, entre 1967-1973.

No início da década de 1970, Felicidade Clandestina (1971) resgata contos de A legião estrangeira e crônicas do Jornal do Brasil. O que é crônica e o que é conto nesse livro? Os gêneros se misturam. Clarice afirmava: “Gênero não me pega mais”. E mais uma vez sua escrita insólita atravessava a nossa literatura tal como previa Alceu Amoroso Lima ao ler O lustre (1946): “Ninguém escreve como ela. Ela não escreve como ninguém”.

Nos últimos livros de contos, Onde estivestes de noite, A via crucis do corpo, e A bela e a fera (este último, um livro póstumo reunindo os primeiros contos datados da década de 1940, além de dois contos inéditos, provavelmente os últimos que escreveu), Clarice continuava experimentando no campo da linguagem, sem fazer concessões, mas agora buscando um modo de dizer mais direto, mais explícito. Segundo alguns críticos, rejeita os artifícios da arte e parece ser ela mesma, indisfarçável aos olhos do leitor.

Clarice na cabeceira torna-se, portanto, um livro singular, onde o leitor convidado pode compartilhar com outros leitores a experiência de ser leitor de Clarice Lispector. Agradecemos a contribuição de todos os leitores participantes deste livro que disseram com amor o nome de Clarice Lispector, fazendo-nos experimentar em sua companhia o delicado da vida.

Entremos, pois, em comunhão, e vamos ao encontro de Clarice.
Amém para todos nós.

Teresa Montero
Doutora em Letras pela PUC-RJ, autora de Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector (Rocco)

Postado por Irla

quarta-feira, 5 de maio de 2010

CLARICEando


Domingo, aos 02 de maio, 19 horas e 30 minutos, nos reunimos na casa de uma de nossas integrantes, como o de costume.

Nesta última reunião chegamos a uma conclusão:

- Clarice é Filosofia.

É conseguir começar a história com uma vírgula (,) e terminar com dois pontos (:) e fazer todo o sentido.

É cogitar concluir com um PONTO final, e assim mesmo não ter um fim.

É incluir reticências dizendo sem palavras o que a liberdade da reflexão preferiu compreender.

É fazer uso de travessão e não dizer com a voz e sim com o suspiro e sussurro da meditação.

É começar uma única estória de várias maneiras, cada uma dizer coisas absolutamente diferentes e, ainda assim, o todo e as partes significarem muito.

É fundir seres, sentimentos e natureza, num elo que de tão harmônico, em cada canto do mundo vira filosofia, poesia, vida.

É servir de inspiração para amores impossíveis, sonhos intangíveis e vidas em mutação.

É dizer de emoções “clandestinas”, daquelas que não contamos a ninguém, nem a nossa própria consciência.

É expressar paixões, dores e angústia com exatidão e tão detalhadamente, que parece ter entrado em nossos corações e mentes arrancando pedaços de nós.

É falar da vida, de viver a vida, e do que representa a vida dentro de nós.

É desnudar nossos vícios, defeitos e crueldades com uma sutileza rasgada de quem diz sem dizer, o que não queremos ouvir.

É te apresentar ao espelho de sua alma, fazendo enxergar a verdadeira essência de sua personalidade.

É observar além das aparências, a nós mesmos, o outro e o mundo que nos cerca, e conseguir sentir o que cada um emana.

É te separar de você e depois reencontrar, como se pudesse dissociar corpo, mente e coração, e num abraço coletivo perdoar a tríade que sustenta tua existência.

É identificar os entraves de nossas identidades e tentar corrigi-los com a maturidade de quem diz: Viver dói!

É uma epifania ao descobrir quem verdadeiramente somos em nossa íntima relação com o Deus que vive em nossas consciências.

É gerar, dar luz, abortar, amamentar, ou não viver nada disso e ser mãe, mulher, ou nenhuma delas.

É construir e destruir, todo dia, os parasitas de nossa pessoalidade e apreender a SER humana.

Entre tantas reflexões, filosofamos, ou melhor, CLARICEAMOS, durante 1 ano e 3 meses, em torno dos 25 contos de Felicidade Clandestina.

Onde quer que esteja, seu espírito eterno, Clarice, obrigada por nos fazer entender a natureza da mulher que cada uma de nós É.

Irla

Correspondências de Clarice

Carta escrita por Fernanda Montenegro a Clarice Lispector em anos de chumbo:

"Clarice

é sempre com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, desesperada e guardada.

Ao ler meu nome escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia na porta dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.

E o nosso mundo, Clarice?

Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo que nos fala Tchecov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não a verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de 'canção sem palavra', tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.

Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.

Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por esse palavratório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora não linearmente - como é o caso.

Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não faremos por nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim frases que você põe no seu artigo: 'Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.' A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.

Voltando às 'verdades duras' de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.

Com intensa comoção.

Fernanda"

Nobres mulheres!

Postado por Isabella